Desabafos
Entraste na minha vida, com cuidado, mas apesar das barreiras revolucionaste o meu mundo.
Contigo tudo era novo, os voos sem rumo, os passeios à beira do abismo, o risco de naufragar de cada vez que mergulhava no teu olhar, e contrariamente à minha natureza, segui em frente…sem medos, disposta a não impor regras, a não fazer cobranças…
A jeito de Mafalda Veiga, a vida levou-nos por várias vezes para longe de nós, mas teimosos descobrimos o caminho de volta um para o outro. Mentira! Teimosos não…teimosa, porque tu nunca tiveste que descobrir o caminho de volta para mim, esse trilho esteve sempre à tua espera, uma estrada que queria ser percorrida…
Não sei bem o que se passou em mim durante estes três anos, nem o que se alterou agora para seguir em frente… algo quebrou. Não sei bem explicar como foi. Nem o que foi. Mas algo partiu dentro de mim, sem barulho, sem estilhaços. Numa qualquer implosão interior, abafada pelo silêncio do coração que deixou de bater.
Eu era a miúda que estava sempre à tua espera... mas hoje não sei continuar a esperar por alguém, o meu coração deixou de bater. Parei no tempo, esqueci-me de mim própria. Vou apagar a existência anterior e simplesmente pairar numa eternidade inexistente, tentando fossilizar sentimentos e esperar que alguém os descubra e saiba o que fazer com eles. Porque eu não sei. Esqueci-me. Ou não quero mais. Porque talvez não valha a pena um mínimo esforço para segurar periclitantemente as ruínas que teimam em resvalar.Vai, liberta-me, dá-me a paz que eu preciso, deixa-me viver, porque se quando chego, olho e não te vejo, é porque não te faço falta, e não tem sentido esperar por alguém para quem talvez nunca tenha existido.
Escrito em 29 de Julho
